Lembro-me como se fosse hoje. Aquele dia em Setembro, o derradeiro dia em que a vida de estudante universitária começaria. Lembro-me de procurar a mão da minha mãe, qual menina pequenina. Lembro-me que estava petrificada, aterrorizada. Aquele edifício provocou em mim mil sentimentos maus, vontade de voltar para trás, desistir da faculdade, voltar ao Secundário, voltar a fazer exames, enfim, ficar e nunca mais sair de casa, da minha casa.
Mas teve de ser... Entrei. Ainda de mão dada à minha mãe ouvi "Tens a certeza que queres ficar aqui?" e eu só consegui olhar para a minha mãe, suspirar e dizer - "Tem de ser." Fui fazer a matricula, ou melhor, tentar, uma vez que eu tremia tanto que não conseguia pegar, sequer, no rato do computador. Fiquei sentada, a tremer, encolhida a ver todas aquelas pessoas que se pareciam muito mais velhas do que eu... Quando finalmente vim embora dei por mim a pensar como iria conseguir sobreviver a 3 anos naquele sitio... Sim, sobreviver era o termo adequado.
Segunda-feira de manha, dia 22 de Setembro de 2008, o meu pai levou-me à Faculdade. Deixou-me no auditório. Deu-me um beijo e virou costas. Doeu. Senti-me abandonada. Deixada lá.mas também sei que o fez por lhe custar. Entrei. Sem conhecer ninguém sentei-me na primeira cadeira livre que encontrei e aí fiquei. Ouvi, pela primeira vez de muitas, as Tunas Académicas e fiquei encantada. Depois disso, foi altura de ir à aula de apresentação da turma de Enfermagem Veterinária, a minha nova turma. Entrei e sentei-me. Vi logo uma rapariga com um casaco castanho semelhante ao meu e logo por aí detestei-a. Ao meu lado sentou-se um rapaz e, o meu primeiro pensamento foi "Pronto, tudo será como no Secundário.". Mas não. Aquele rapaz demonstrou ser o melhor dos amigos, a pessoa que estaria ali para me apoiar, independentemente de tudo. Todos os outros foram conhecidos, alguns imediatamente postos de lado, outros esperando, um dia, poder vir a conhecer da maneira que ansiava.
O primeiro ano foi passando. Algumas lágrimas, muitos risos, a descoberta, a aventura, uma nova vida, uma liberdade até então desconhecida. Passei as férias de verão a desejar que Setembro chegasse depressa para poder rever todos aqueles de quem gostava, de voltar para o lugar onde me sentia livre e feliz. Mas nada foi como dantes. A amizade quase se dissolveu. Perdi a conta das vezes que, em agonia, chorei, desejei sair dali e nunca mais voltar. Estive quase a desistir. Até que, a pessoa que agora mais significa para mim me disse "Não achas que está na altura de enfrentar isso e decidir se o queres ou não e então lutar?" E foi o que fiz. Tomei a minha decisão. Decidi que queria aquilo, que ia lutar, não pelo que tinha tido mas por um pouco de amizade, convívio.. E assim foi. O segundo ano acabou, finalmente.
No ultimo dia de aulas, aquele amigo a quem chamava de Melhor Amigo, pela maior das parvoíces, deixou de me falar. Mas, por incrível que possa parecer não custou. Mostrou-me apenas que era, de facto, possível viver sem ele, sem aquela amizade.
Setembro chegou, mais uma vez. Recebi uma mensagem dele dizendo que tudo voltaria ao que era, mas não para mim. A confiança, outrora de 100%, desapareceu, ficou apenas um sentimento vago, mal comparado a uma pessoa com quem posso tomar um café e não voltar a ver nos próximos 10 anos. Fiz de conta. Fiz de conta que voltámos a ser os amigos que éramos, contudo, no meu íntimo, sabia que tal não era verdade e esforçava-me por te mostrar a mentira. Voltaste a confiar em mim, voltámos a sair juntos, como se nada se tivesse passado. O primeiro semestre passou, atribulado, mas passou. O Pedro, pessoa que me abriu os olhos quando estive quase a desistir de tudo, mostrou-se, mais uma vez, um amigo que estaria ali quando fosse preciso sem a necessidade de atenção que tu precisavas. Uma amizade que eu adorava pois, apesar de não o demonstrarmos, sabíamos que estávamos ali, para o que fosse preciso.
Estagiei contigo e, agradeço profundamente a tua companhia naquelas 3 semanas, no entanto, pelo simples facto de que aquele estágio foi uma enorme seca, apenas por isso. E, mais uma vez, voltei a fingir que confiava em ti, voltei a fingir, voltei a ser cínica...
Pela coisa mais estúpida que possa existir voltaste a deixar de falar comigo e agora sou eu quem o digo, não voltas a fazer parte da minha vida. Não preciso de ti. Guardo as recordações, as boas e as más. Aquelas que me fizeram sorrir e rir como uma perdida e aquelas que me fizeram chorar e gritar de desespero. As marcas, físicas e psicológicas permanecem mas não passam disso, marcas, cicatrizes. Guardarei tudo isso dentro de uma caixinha, dentro do meu coração. Não me arrependo do que fiz. E, espero por muito tempo, guardar aquela que é possível ver com os olhos comuns. Não a fiz por ti, mas sim por mim. Aprendi com isso, aprendi que posso ser forte quando é preciso, aprendi que não preciso de amigos, pelo menos não preciso de pessoas cínicas e arrogantes na minha vida, para isso tenho-me a mim, obrigada. Não preciso de confiar os meus problemas a outra pessoa que não ao meu próprio eu. Acima de tudo, aprendi a não dar a vida por outra pessoa. Aprendi que nem sempre, se não nunca, as pessoas não valem a pena. Aprendi a não fazer planos, aprendi a não falar num futuro, apenas no presente e mesmo nesse, planeado sempre com a consciência que tudo pode mudar num segundo.
Contigo, descobri a pessoa que era. Agradeço-te por tudo, pelo bom e pelo mau. Mas, o sentimento acabou. Seguirei a minha vida, sem ti. Desejo-te as maiores felicidades para a tua vida, a nível pessoal e profissional. Espero que encontres a pessoa que anseias. Farei o mesmo.
Praticamente terminado o curso, despeço-me da minha vida de estudante universitária, ansiando a próxima que se avizinha, despedindo-me também da pessoa que fui contigo e, acima de tudo, despedindo-me de ti, sem esperanças.
Adeus Carlos. Adeus Faculdade. Adeus Pessoas que, mais uma vez, vão e vêm na minha vida.
DC.

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