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segunda-feira, 10 de maio de 2010

O Fim?

Sinto que cheguei ao fim.
De um momento para outro a depressão abateu-se sobre mim dominando-me por completo.
Por muito que ela tenha sido, desde sempre, a minha leal amiga, revelou-se, agora mais do que nunca, a minha pior inimiga. Sem eu querer ou contar, derrubou-me. A sangue frio apunhalou-me e, simplesmente, não consigo estancar este sangue que, numa correria louca, me abandona. Pouco a pouco sinto o meu corpo dormente, os meus movimentos entorpecem e eu, lentamente, começo a perder a consciência de tudo mas, ao mesmo tempo, ganho-a. Apercebo-me das coisas que fiz e que não devia ter feito, das coisas que ficaram por dizer, todas as palavras que deviam ser ditas em certos momentos e não foram, por vergonha ou incerteza do sentimento. Clareza, é tudo o que sinto agora.
Arrependimento.
Arrependo-me, maioritariamente, daquilo que não fiz.
Arrependo-me, sim, profundamente, de não o ter feito antes. Porquê? Porque, na minha inocência de criança e também adolescente, ainda existia esperança. Esperança essa que durou quase 20 anos. Esperança que, com o decorrer do tempo, tudo se recompusesse. Não. Não aconteceu.
A vida mostrou-se dura, dificultada por barreiras transparentes, barreiras que não consegui antever. Barreiras opacas, outras, simplesmente barreiras.
Com a ajuda de algumas pessoas, após o embate contra estas, levantei-me.
Em tempos, fui impedida de o fazer. Mas o sentimento perpetuou-se, ganhou consistência e, passados estes anos, voltou a atacar-me. Com a pouca força que me resta luto. Esta luta, que anseio por ganhar, sinto-a no fim e, sabendo o final, perco-a.
Grito desesperadamente por ajuda mas ninguém me ouve. Grito em seco, grito roucamente, ou sonharei apenas que grito? Como é possível que ninguém me oiça? Como é possível que ninguém esteja na disposição de me estender uma mão, um dedo que seja? Será pedir muito, antes que seja tarde de mais, que alguém me abrace fortemente, me puxe na direcção contrária do tornado que varre, sem dó nem piedade, o meu coração e também a minha alma?
Peço-te! Preciso que me salves de mim própria!

A luta e o desespero são tão grandes que já nem uso o cinismo que possuo. Qualidade tão magnifica, para quem a compreende, mas tão desprezada pelos outros. Não quero saber de mais nada, deixei de fingir que tudo está bem comigo, que sou feliz e transpiro alegria. Qual o propósito de enganar os outros, de iludi-los?
Talvez, se eu fosse uma pessoa alegre e divertida, as pessoas gostassem mais de mim. No entanto, no meio de tantas dúvidas, sei que, quando estiver sozinha, posso então despir essa roupa que, outrora me assentou extremamente bem, e que, devido a tudo o que ocorreu desde então, deixou de me servir. Não quero saber... Vou mostrar o meu pequeno sorriso, nesse mesmo sorriso, esconder a lágrima que se avizinha e que, sem bater à porta, entra e escorre. Não vou permiti-lo, não assim. Não vou chorar em frente a ninguém, nem mesmo à tua frente. Vou sorrir, mostrar aquele meu pequeno sorriso que, em tempos foi sinal de adoração mas que agora serve, unicamente, para esconder a dor que sinto. Porque não a vês? Porque não a vês espelhada no meu olhar? Porquê?
Não te afastes de mim, não agora. Não me deixes afastar-me de ti, não permitas. Não me quero isolar mas sou obrigada. Involuntariamente escondo-me, afasto-me, choro e desespero. Por favor... obriga-me. Obriga-me a não ficar sozinha, obriga-me a ficar perto de ti ou até perto dos outros. Força-me a sorrir. Preciso. Preciso que venhas atrás de mim e me abraces. Abraça-me. Só preciso disso. Preciso fortemente desse abraço apertado, de um segundo de carinho, de um segundo de importância e não apenas de uma ou outra palavra. Abraça-me com toda a tua força e mostra-me que tudo não acabará aqui. Não deixes que tal aconteça. Por favor.

Não o faço para chamar atenção. Não penses isso de mim. Não o faço por ciume, apesar de o sentir. Faço-o porque és o único a quem posso pedir tal coisa. Além de não ser uma coisa da qual me orgulhe, não posso, nunca, falar com os meus pais. Visualizar a desilusão ou o desespero estampados nas caras deles enlouquece-me. E sozinha já tentei. Todos os dias tento. Todos os dias forço a corrente que me prende... Tenho medo que ela se parta.

Isto não surgiu do nada... Todos estes anos acumulados, todos os sentimentos amarrados, Ela, agora este súbito sentimento de substituição... transbordei e, a pequena depressão, minha característica pessoal, apoderou-se de mim. Podia até brincar com as aulas de Infecciosas e compará-la a uma Listéria que, estando eu imunodeprimida se apoderou de mim. Infelizmente não a "apanhei" de uma alface mal lavada.
Não é o facto de não teres paciência para ouvir os meus desabafos disparatados que me deixa mal. É o facto de eu, simplesmente já não os conseguir guardar para mim. Sempre o fiz e, desde que te conheci que aprendi a confiar, de tal maneira em ti, que custa-me não partilhar. Mas não, não consigo falar sobre isto. Eu sei que devia chegar à tua beira e dizer-te tudo o que me atormenta mas não consigo. Há coisas, que, pela imensa dor que causam, não me são possíveis de exteriorizar. Compreende-me. Eu sei que é preciso coragem para conseguir acompanhar-te, sei que é necessário muito mais do que dedicação, mas não neste caso. Neste caso não se trata de ter coragem para te dizer aquilo que sinto que está mal connosco, trata-se de ter coragem para chegar à tua beira e pedir-te ajuda porque não consigo aguentar isto sozinha.
Desde que te conheci que não voltei a fazê-lo, pela mesma razão pela qual tu não me contaste dos teus jogos amorosos, porque te desagrada, porque não compreendes. Talvez percebas agora que eu preciso disso para não ficar assim, neste estado, de depressão profunda, a minha própria depressão profunda.

Percebo perfeitamente se não fizeres nada, se te limitares a agir normalmente. Percebo que não estejas disposto a aturar-me. Percebo, se a partir daqui, te afastares por completo. Percebo que não queiras uma amiga que tem esta mentalidade, mas não consigo evitar. Foram quase 20 anos a reprimir sentimentos e emoções. Cheguei ao limite e preciso de ti. Desesperadamente de ti. Preciso da pessoa que és e que, por motivos que eu não compreendo, escondeste.

Acalmou-me. O frio do metal e o quente do sangue, mais uma vez acalmaram-me. Fui mais longe. Talvez mais do que aquilo que devia mas não faz mal. Talvez assim eu volte àquilo que era, talvez assim volte a ser aquela que outrora conheceste a adoraste. Talvez assim eu consiga não o fazer....

Não me julgues, não me critiques, não olhes para mim com esse teu ar de desaprovação. Por favor! Talvez não seja a maneira mais correcta de lidar com esta situação mas é a única que me segura e mantém aqui, perto de ti.

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